A
contaminação de mananciais, a proliferação de doenças como a salmonelose e até
a margem de lucro são questões relacionadas ao uso da água em entrepostos que
processam pescados. A importância da água nesse ramo industrial levou à criação
do projeto de pesquisa “Gerenciamento hídrico aplicado a entrepostos de
pescado” coordenado pela Embrapa com a participação de diversos parceiros e
financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
(CNPq) e pelo Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA).
Os participantes do projeto fizeram a primeira reunião nos dias 11 e 12 de
abril na Universidade Federal do Tocantins (UFT), em Palmas. A coordenadora do
projeto, Daniele de Bem Luiz, da Embrapa Pesca e Aquicultura, informou que o
encontro teve como objetivo apresentar o grupo, estabelecer as diretrizes e
elaborar um cronograma de trabalho em conjunto com todos os participantes.
Com a duração prevista de três anos, o projeto foi iniciado em dezembro de 2012
receberá cerca de R$1 milhão em recursos e envolverá empresas e instituições de
pesquisa de cinco estados: Mato Grosso, Santa Catarina, São Paulo, Rio de
Janeiro e Tocantins. Participam pesquisadores da Escola Superior de Agricultura
Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), Faculdade de Medicina
Veterinária de Araçatuba da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita
Filho (Unesp), Universidade Federal Fluminense (UFF), Universidade Federal de
Santa Catarina (UFSC), Universidade Federal do Tocantins (UFT) e de quatro
Unidades da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária: Embrapa Agroindústria
de Alimentos, Embrapa Meio Norte, Embrapa Pantanal e Embrapa Pesca e
Aquicultura.
O setor industrial também faz parte do projeto com representantes dos
frigoríficos Piracema, do Tocantins, Gomes da Costa, de Santa Catarina, e
Calombé, do Rio de Janeiro. O Ministério da Pesca e Aquicultura colabora fornecendo
informações sobre a produção em cada estado. “Precisamos trabalhar com as
espécies de peixe mais processadas em cada estado e quantificar a produção de
cada região”, relatou Danielle.
Um bom gerenciamento hídrico, de acordo com a especialista, pode erradicar
problemas sanitários como a salmonelose e outras doenças transmitidas pela água
durante o processamento. O cuidado com a água ainda evita problemas ambientais
ao mapear todos os efluentes gerados no processamento. O balanço hídrico traça
o caminho da água e lista os efluentes de cada setor identificando os pontos de
maior consumo.
Um dos objetivos do projeto é verificar o potencial de minimização do consumo
de água, o que pode gerar uma economia considerável às indústrias. “A água de
chuva e água de degelo das câmaras frias poderiam ser aproveitadas em circuitos
que não exigem potabilidade como as linhas de incêndio, por exemplo”, sugeriu
Danielle. Outro ponto citado foi a prática da regulagem periódica de
equipamentos e de treinamento constante dos operadores, “um simples ajuste de
pressão nas máquinas pode resultar numa grande economia no fim de um mês”,
apontou.
Os estudos deverão gerar um conhecimento valioso para a indústria de pescado, a
determinação da quantidade mínima de água necessária para cada etapa de
processamento e por quilo de peixe processado. Com esses parâmetros, as
empresas poderão balizar suas produções e identificar perdas por desperdício de
água. Serão estudadas também tecnologias que substituem o uso da água como a
evisceração a vácuo, aplicável a algumas espécies de peixes.
Técnicas de produção mais limpa serão testadas como a esterilização da água por
ozônio comparada à cloração. Do mesmo modo, a limpeza por aspersão será
comparada à técnica de imersão para as diferentes espécies a serem estudadas.
Na área ambiental, serão quantificados e qualificados os efluentes gerados em
cada etapa do processamento com análises físico-químicas e microbiológicas.
Para isso, o projeto prevê a montagem de um laboratório itinerante para a análise
in loco das amostras.
“O trabalho deverá resultar num modelo de gerenciamento hídrico aplicável a
entrepostos de todos os portes”, comunicou Danielle Luiz. O chefe adjunto de
Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Pesca e Aquicultura, Eric Routledge,
acredita que essa pesquisa impulsionará outros trabalhos que ajudarão a
estruturar o setor. “O projeto deverá gerar bons resultados que trarão novos
recursos para responder as perguntas que este trabalho levantará”, disse
Routledge.