terça-feira, 10 de julho de 2012

Especialista da Escócia mostra ferramentas para avaliar capacidade de suporte


Quantos peixes ou crustáceos pode ser cultivado em cada local? A resposta para essa pergunta diz respeito à capacidade de suporte, área de estudo do pesquisador Lindsay Ross, da Universidade de Stirling, Escócia, que apresentou uma conferência sobre o assunto na manhã de terça-feira, 3 de julho, no Aquaciência 2012, evento promovido pela Embrapa e pela Sociedade Brasileira de Aquicultura e Biologia Aquática (Aquabio).

A questão ambiental é apenas um componente a ser avaliado que envolve também processos relacionados às áreas social, econômica e produtiva. “É preciso ter um sistema holístico de suporte de decisões”, ensinou o especialista ao apresentar uma série de modelos computacionais relacionados aos diferentes processos.

As mudanças climáticas também devem ser consideradas nos modelos de simulação, segundo colocou Ross. Como exemplo, apresentou um modelo do sul de Bangladesh, região mais utilizada por aquele país para a criação de peixes. Em um intervalo de dez anos, o local teve as àreas alagadas aumentadas em até dez vezes devido ao aumento do nível do mar. Esse tipo de observação auxilia na construção de modelos para prever onde e como produzir peixes em regiões mais susceptíveis às alterações climáticas.

Outro modelo apresentado simulou a dispersão de agroquímicos contaminantes nas regiões produtoras de peixes do Vietnã. Ao levar em conta o movimento dos ventos, das correntes e das marés, o modelo mostrou uma dispersão que alcançava dezenas de quilômetros. “Sem esse modelo computacional não se imaginava que os agentes poderiam ser levados tão longe”, afirmou o professor. O alcance da dispersão vale também para os dejetos dos peixes que podem ser vetores de doenças, segundo alertou Ross.

Para mostrar as áreas de dispersão, os modelos utiliza-se de imagens de satélite das regiões a serem estudadas e lançam mão de equações que simulam os movimentos e propriedades dos dejetos na água como a sua decantação, solubilidade e densidade.

Nem sempre o fator ambiental é preponderante na hora de avaliar a localização e o tipo de produção aquícola. “Cada país e região tem uma prioridade diferente às vezes os fatores sociais ou econômicos são majoritários”, esclareceu.

A ilha de Tenerife, do arquipélago das Canárias no oeste africano, é um exemplo da preponderância do fator econômico. A ilha vive basicamente do turismo e o zoneamento das áreas propícias para a aquicultura foi elaborado com a preocupação de não afetar aquela importante atividade econômica.

O modelo matemático mapeou todas as áreas importantes para o turismo da ilha e restringiu as áreas destinadas à aquicultura aos locais em que não afetassem as orlas ocupadas por hotéis ou atividades turísticas, ou mesmo que pudessem interferir na paisagem costeira.

Outro fator que pode pesar na equação é o social. “A influência e desejo das comunidades locais podem ser preponderantes num empreendimento aquícola, e as razões muitas vezes não são objetivas, mas subjetivas. Mesmo assim, devem ser consideradas e respeitadas”, apontou Ross. Esses critérios dizem respeito à carga social de um projeto aquícola, que trata basicamente de responder à pergunta: o que é aceitável para uma determinada sociedade? Por isso, a decisão não pode ser somente técnica.

Devido aos diversos processos envolvidos e à complexidade de cada um deles, Ross defende a aplicação de uma combinação de modelos para cada situação a qual terá pesos diferentes para os fatores ambientais, econômicos, sociais e produtivos.

Para o pesquisador, as análises não devem se restringir à aplicação de modelos computacionais, pois, apesar de responderem muitas questões, eles não darão todas as respostas. Na costa noroeste da Escócia, ele acompanhou um mapeamento que identificou um aumento da biodiversidade marinha próxima aos locais de criação de peixes.

Ross explicou que não é possível responder se essa diversidade seria tão grande se não houvesse as criações, ou se o número de espécies seria ainda maior se as fazendas de peixes não existissem. “Isso não conseguimos responder, pois dependeria de um estudo mais amplo e de longo prazo”, admitiu.

Fonte: Embrapa Pesca e Aquicultura



Nenhum comentário:

Postar um comentário