Fonte:
Luiz Valle, Presidente da Cavalo Marinho (empresa do Grupo Leardini)
Jornal Brasil Economico, São Paulo, 03 de agosto de 2012
Há alguns anos recebíamos no Brasil um grupo de pesquisadores do governo chileno. Trabalhavam em um projeto de pesquisa e desenvolvimento de pacotes tecnológicos visando o cultivo de peixes nativos do Norte do país, onde a temperatura é mais elevada. O motivo: no Chile, a aquicultura está concentrada na região Sul, onde a temperatura é baixa e a produção limitada ao salmão e ao mexilhão. O que claramente se desejava era a diversificação das espécies cultivadas para fim de exportação e a desconcentração da região de cultivo.
O exemplo explica por que o país vizinho se transformou em um dos maiores produtores e exportadores mundiais de pescados e frutos do mar. Essa condição não resultou apenas da vocação e da eficiência de seus produtores. O governo investiu e investe muito em pesquisa e em desenvolvimento tecnológico, com o objetivo de apoiar a iniciativa privada e, assim, estruturar e dinamizar o setor produtivo, com base em seu plano nacional para a produção de peixe.
É aí que vale pôr em relevo a importância da criação da Embrapa Pesca e Aquicultura. Finalmente teremos no Brasil um órgão do governo fazendo papel de governo no desenvolvimento de um segmento da economia nacional que tem uma potencialidade extraordinária e cuja consolidação há muito urge. Como afirmei em recente entrevista a um dos pesquisadores contratados pelo órgão para definir os desafios que a Embrapa tem pela frente, há tudo por fazer!
Quantas espécies de bagres nativos da Amazônia podem substituir o asiático pangassius (vulgo panga), abundantemente importado pelo Brasil? Quantas espécies exóticas, já criadas em nosso país, como a tilápia e o camarão cinza, carecem de aprimoramento genético e de métodos de cultivo que ainda têm muito que se modernizar até alcançarem a produtividade e a competitividade experimentadas em outros países? E a produção interna de moluscos bivalves (de duas conchas), ainda tão insípida, que aguarda na fila da inserção tecnológica para se tornar geradora de riqueza e item de importância no equilíbrio de nossa balança comercial do peixe? Na área de desenvolvimento de rações nossa defasagem é igualmente imensa. Muitas espécies tiveram seus experimentos frustrados no nascedouro, por incapacidade do mercado interno de gerar alimento adequado à produção em cativeiro.
Enquanto isso, do outro lado do planeta, a China sai na frente, anunciando que daqui a onze anos irá ultrapassar os Estados Unidos e se tornar o país que mais investe em pesquisa e inovação tecnológica. Ao contrário das nações que hesitaram em gastar com desenvolvimento científico nestes tempos de crises econômicas, o governo chinês vem elevando gradualmente os aportes em favor da inventividade.
Quando o governo brasileiro anuncia a entrada da Embrapa na pesquisa e no desenvolvimento da aquicultura nacional, bem como da nossa atividade de captura, ele quer dizer (sem nenhuma referência aos concorrentes asiáticos) que finalmente abriu os olhos para a riqueza e o potencial do nosso setor. A Embrapa nos encontrará ávidos de conhecimento e muito dispostos a cooperar. Os tempos estão mudando e o produtor brasileiro começa a ver motivos sólidos nos quais sustentar as suas esperanças.
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